Eu tinha certeza que as coisas iam se manter normais, como prometeram nos últimos três dias. Mas veio aquele temporal que derrubou o grande ipê, fechando a rua e acabando de vez com o tapete branco que se curvava aos transeuntes no final do inverno. Veio a falha na luz, a molhaceira na varanda, o cachorro pingando de molhado e carimbando suas patas na sua camisa branca, os trovões sacudindo os vidros e espalhando desolação pela manhã do domingo.
Nem o aroma de pernil assando evitou a bomba da melhor amiga arranjando novo par para aquele que eu nem me acostumara ainda a não ser meu par. Nem a cerveja gelada acalmou os ânimos dos que se puseram a discutir filosofia na hora da fome. Nem toda confusão das louças bailando na pia depois do almoço foi capaz de abafar o grito do amor desamarrando as correias. De novo.
Mas não tinha morrido?
Só parecia. E ali ficou a barba mal feita lembrando os lençóis esporrados e as curtas noites. Ali ficou a sobremesa esquecida lembrando o desdém de quando ainda se tem. Ali caiu a noite, sem chuva e sem gente, lembrando a escolha equivocada.
Volta comigo?
Não. Sem argumentos, o carro flutuou devagar pelas curvas da avenida silenciosa. Dormiu do outro lado da rua, enquanto o ipê também reclamava o seu antigo lugar. O sono veio aos tropeços, rolando nas fronhas, nos fatos, nos flatos.

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